Depois de duas guerras a Europa não dorme em serviço. Nós brasileiros somos um país de paz e nunca sequer colocamos a hipótese de algo realmente grave acontecer no nosso Brasil. Obviamente, nenhum lugar está livre do imprevisto (bate na madeira três vezes). Aqui na França acontece assim: na primeira quarta-feira do mês, todas as corporações de bombeiros do país tocam os seus alarmes por 1 minuto ao meio dia em ponto e depois por mais sessenta segundos, logo dez minutos depois. Dentro dessa regra não há nada de errado. por sua vez, se ele tocar por um minuto, parar por cinco segundos e recomeçar repetidamente algo de muito grave aconteceu. A recomendação nesse caso é dirigir-se a um local fechado, se estiver na rua, ou permanecer em casa, com o ar condicionado desligado, janelas fechadas e com o rádio ligado. O objetivo é evitar o pânico e é tão genérica e eficiente quanto o “duck and cover” da década de 50/60.
Apesar de tentarmos imaginar, temos a sorte de nunca termos vivido uma situação suficientemente perigosa para conseguir saber como agiríamos num cenário parecido. Talvez só naqueles pesadelos, em que acordamos gritando ou chorando podemos ter uma mínima noção do que poderia ser. Já tive sonhos em que senti ou presenciei desastres de aviões que prefiro nem lembrar da sensação que presenciei, mesmo sem ter “presenciado”.
Essa noite, um temporal no meio da madrugada, que chegou como uma chuva de verão, refrescante e nervosa, trouxe de novo o mesmo pensamento.
Relâmpagos e trovões nunca me assustaram além do medo normal de que um raio queimasse a televisão ou o computador. Mas essa noite ouvi um trovão que nunca conseguiria descrever e que nunca tinha presenciado. Talvez fosse o sono e a atenção comprometida pela moleza noturna mas o som, seco e onipresente, tinha uma sensação diferente. Por um segundo, talvez dois, pensei que era um prédio caindo, uma bomba, uma explosão, algo muito muito sério. E tive medo. Medo por mim, pelas pessoas que gosto, por todas as pessoas que não conheço e que poderiam estar envolvidas na suposta explosão, por todas as pessoas que já viveram algo traumático e não tiveram tempo para reagir. E por elas todo o meu respeito e silêncio.





