Eu sempre acompanhei as Olimpiadas pela unica fonte que os brasileiros têm acesso, a Globo. Vibrei com as vitórias, sofri com as derrotas, me irritei com os atletas, xinguei os adversários, tudo embalado pela narração discutível do Galvão Bueno e os comentários mais ou menos discutíveis dos comentaristas que a Globo tem a disposição de contratar.
Depois de ter mudado para Portugal, acompanhei a realidade olímpica portuguesa da quase ausência de medalhas e da vibração nacional parecida com a do Brasil quando algum atleta orgulhava a camisa lusa. Pela proximidade, os brasileiros sempre foram bem servidos na transmissão portuguesa, já que o vôlei de praia, o futebol, a natação e o judô, entre outros, eram destaque canarinho no espaço televisivo português.
Nessas Olimpíadas de Pequim, acompanhei na íntegra pela televisão francesa e rodeado de uma realidade diferente do que já havia presenciado, já que os atletas franceses têm chances reais de ganhar muitas medalhas em modalidades praticamente desconhecidas do brasileiro comum. Esgrima, canoagem, luta greco-romana ou handebol são disciplinas que os franceses acompanham com esperança de pódio.
Três mundos diferentes, com expectativas distintas e realidades olímpicas completamente diversas. No entanto, duas coisa não mudam. A primeira é a passionalidade dos narradores da TV. Juro que várias vezes pensei que alguém tivesse morrido ao vivo quando a televisão estava ligada sem que eu estivesse assistindo, mas era “apenas” o narrador se empolgando com um golpe mais bem sucedido. Outras vezes pensei estar ouvindo o Galvão falando francês, quando a revolta do comentarista – depois de uma derrota sempre injusta nos olhos do jornalista em questão – ultrapassava os limites do razoável. E ninguém é poupado. Juízes, árbitros, adversários, treinadores podem ser os visados dos narradores franceses que provam que pra torcer não precisa estar na arquibancada.
A segunda coisa que não muda é o mundo das reclamações e justificações pelas derrotas. Nesses dez dias de competições, ouvi as desculpas mais esfarrapadas desde a época em que a gente não queria fazer aula de Educação Física no colégio. O cavalo se assustou com o telão e não quis pular, a poluição atrapalhou, as competições de manhã enquanto para o fuso do atleta era madrugada, intimidação quando viu o estádio cheio, aperte os cintos a vara sumiu, condições do clima, enfim, todas as opções acima são reais, estão registradas e foram ditas por atletas brasileiros, portugueses e franceses, apenas para dar três países que conheço bem como exemplo.
Para quando teremos atletas auto-responsáveis pelos seus erros? Que assumam, perdi porque não estava bem preparado, porque amarelei, porque os adversários eram muito melhores do que eu, porque eu não tenho nível olímpico, ou seja EU perdi, os outros ganharam, ponto final.
Porque se a moda pega podemos começar a usar a técnica no nosso trabalho. Ah, os prazos não foram cumpridos porque o computador é lento demais. Faltei na reunião porque essa poluição de São Paulo me deixa tonto. Perdi o cliente porque quando volto das férias demoro uma semana pra me recuperar. Se for pra seguir esse caminho, as crianças são sempre a melhor escola e não adianta inventar o que já está inventado. Por isso, atletas, nas próximas Olimpíadas basta dizer que o gato mijou em cima do seu quimono, que o cachorro comeu sua raquete, que a empregada jogou fora as suas luvas, que a sua vara sumiu.. Ops, parece que alguém já está aprendendo a lição.






1 Comentário
Agosto 25, 2008 às 11:24 am
Tsc, tsc, tsc… concordo com você em gênero, número e grau. Agora acabou essa nheca: só daqui a quatro anos. Odeio esporte. Juro! Mas também torço, e me retorço, principalmente quando vejo aquela gente desafiando a lei da gravidade. Incrível né?
Dalva,
Ah, eu gosto de olimpiadas, fico torcendo ate no cuspe a distancia entre a Polonia e a Islandia..lol. Mas essa vez o fuso nao ajudou, nas proximas em Londres vai ser mais facil, pelo menos pra gente aqui..