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Luz

agosto 27, 2005

O soro pingava ao ritmo dos ponteiros do relógio, mas a noite não passava. A solução salina era despejada na sua corrente sanguínea enquanto seu olhar estava inclinado para a janela, com a cabeça de lado no travesseiro. Os lençóis frios pareciam molhar as suas pernas flácidas e pálidas, cansadas da luz branca do hospital.
Depois de dois meses internado em busca de um doador de medula, Lúcio começava a perder as esperanças. Seu tipo sanguíneo, O negativo, era o número premiado da loteria que teimava em não sair. Os tempos não foram sempre de tristeza. Lúcio já foi quase operado por duas vezes, mas em ambas ocorreram contratempos que o impediram de ser feliz. Na primeira, houve um problema com a base de dados do hospital e a medula que era para ele foi parar num doente que estava mais abaixo na lista de espera. A ordem dos fatores não altera o produto. Era nessa frase matemática que pensava quando recordava o episódio. Preferia imaginar que o erro salvou a vida de uma outra pessoa, não importando que não fosse a sua. Mas importava. O produto que não foi alterado foi também a situação de Lúcio, ali, naquela cama de hospital.
No silêncio de um quarto de hospital, Lúcio ouvia as gotas do soro caindo e lembrava da chuva de verão na janela de madeira do seu quarto, quando ainda era uma criança. Pareciava o barulho da chuva e, naquela época, nunca imaginava que viria a associar esse ruído com um dos piores momentos da sua vida.
A segunda ocasião falhada de transplante foi por mera causa técnica. Análises de última hora verificaram que o seu sangue não era compatível com a medula em questão. Paciência. Agora, que contava o tempo não pelos minutos, mas pelo número de injeções ou de comprimidos, qeria apenas que aquela situação acabasse logo.
Olhava para a janela do hospital e lembrava da mesma janela do seu quarto. Não sabia o porquê das lembranças recorrentes da infância, mas tinha medo que isso significasse a proximidade da morte. Recordava dos dias em que ficava doente e a cama do seu quarto era o melhor recanto do mundo. Lembrava de quando fingia estar doente, para não ir à escola e tomar sorvete quando dizia ter dor de garganta. Lembrava. Lembrava de tantas coisas.
Nesse momento, uma luz refletiu do soro de Lúcio e cada gota recebeu um brilho especial. Para qualquer pessoa era o dia raiando, mas para ele, era um novo começo. Nos dias em que fingia estar doente, enquanto criança, às vezes esperava o sol raiar para ver as gotas de chuva brilhando e secando com o calor do novo dia. Hoje, naquele nascer do sol, na frieza do quarto hospitalar, Lúcio sentiu vontade de olhar para a janela com outros olhos. Olhar de quem espera o dia chegar. Olhar de quem espera. De quem olha com esperança.

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6 Comentários leave one →
  1. Red permalink
    agosto 28, 2005 10:29 am

    Fico boba diante da maneira em que vc consegue colocar em palavras sentimentos e sensações, de forma tão pura e natural… lindo.

  2. Dalva M.Ferreira permalink
    agosto 28, 2005 1:39 pm

    Quanta impotência, não? Num leito de hospital, a gente é só um objeto, um sujeito passivo.

  3. Anonymous permalink
    agosto 28, 2005 5:10 pm

    DE FACTO, A FORMA COMO ESCREVES DA MESMO A SENSACAO DE ESTAR A SENTIR AQUELAS EMOCOES E SENTIMENTOS… GOSTAVA DE TER O MESMO JEITO… UM BEIJO

  4. Tita Aragón permalink
    agosto 29, 2005 12:06 pm

    São 9h06 da manhã de segunda-feira e eu estou em lágrimas… quase pude salvar um outro Lúcio (ou Lúcia), há mais ou menos um ano, mas não deu tempo. Não por falha técnica ou problemas nos computadores, mas por pura burocracia.

  5. Bianca permalink
    agosto 29, 2005 4:39 pm

    fiquei com vontade de ler os capítulos seguintes desta história, poxa, logo na hora em que surgiu a esperança o texto acabou!

  6. bia permalink
    agosto 30, 2005 2:50 am

    Porque lembrar da infância… talvez porque seja a única época em que realmente sabemos que éramos felizes. E é bom ter esperança, é muito bom. Logo talvez ele não lembre do barulho do soro.

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