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Um retrato do retrato

junho 28, 2011

E dentro daquela cortina empoeirada, revela-se um mundo de sorrisos, poses e sonhos, mesmo antes da verdadeira e derradeira revelação, sobre uma tira de papel químico onde a fisionomia ficará estampada para a eternidade.
Seja por diversão ou por obrigação, todos nós já entramos numa cabine fotográfica para registrar um instante na linha do tempo da vida. O processo é simples. De longe reparamos numa cabine iluminada, com amostras de fotos repetidas ilustrando o que a engenhoca pode fazer por nós. Escolhidos o tipo e a quantidade de fotos, entramos na cabine, fechamos a cortina e ficamos sentados, sozinhos, frente à frente com nós mesmos.
Quase sempre, a pessoa que usou a cabine antes de nós é muito alta, ou muito baixa, o que obriga uma manobra rápida e divertida, de rodar o assento para que ele, tal como um parafuso gigante, se eleve ou se abaixe, permitindo que os nossos olhos estejam corretamente posicionados diante da lente da objetiva.
Hora de colocar a moeda, apertar o botão e esperar os flashes. Ali estamos nós, numa espécie de câmera oculta porém desta vez sabemos aonde ela está, quando vai disparar, e mesmo assim esperamos imóveis o tiro de misericórdia do registro fotográfico.
Se a foto é de brincadeira, podemos colocar duas, três, às vezes quatro pessoas na fotografia e se não ficar bom, bem, não tem como não ficar bom. Como sair, saiu ótimo.
Por outro lado, se a fotografia é para um documento, sentamos formalmente no banquinho, arrumamos a roupa, escolhemos a nossa cara mais oficial, a melhor delas e aí damos autorização para o fuzilamento.
Do lado de fora, aguardamos a luz se apagar para a fotografia ficar pronta. A imagem, biônica e robótica, está ali, cheia de vida e ao mesmo tempo congelada.
O fascínio pode ter sido diluído pelas máquinas fotográficas digitais de hoje em dia, mas quando Anatol Josepho, um siberiano que se mudou para os Estados Unidos no começo do século XX, olhou para as primeiras fotografias saídas da sua invenção, o entusiasmo era incontrolável.
O homem que saiu da Rússia, passou por Berlim, Budapeste, Xangai, chegou nos Estados Unidos em busca de investidores para a sua ideia. Com parentes em Nova York, Anatol conseguiu 11 mil dólares de patrocínio, uma fortuna para a época, cerca de cinco vezes o valor de uma casa. E esse dinheiro era apenas para o primeiro protótipo.
Em 1925 a primeira cabine de fotografia do mundo, abre na Broadway e atrai 8 mil pessoas por dia, afinal, conseguir tirar uma foto quase instantaneamente em meados dos anos 20 é algo que não pode ser desprezado.
Menos de dois anos depois, a patente americana de Anatol é vendida por um milhão de dólares, um lucro mais do que razoável. O russo doa parte do dinheiro aos necessitados da cidade de Nova York e devido às suas origens, é acusado de ser um socialista, assunto tabu durante todo o século passado.
Ao longo das décadas, a cabine tornou-se um símbolo de liberdade, onde era possível fazer (quase) tudo sem julgamentos. A máquina foi adotada por artistas, pelo cinema, pelas repartições públicas e hoje em dia as cabines estão presentes até em casamentos, para animar os convidados e eternizar o momento de uma forma divertida e diferente.
O modelo tradicional, com fotos em preto-e-branco, tem sido substituído por cabines mais recentes, digitais em que o charme é substituído pela eficiência e rapidez, onde podemos escolher entre as melhores fotos. Nada a ver com a incerteza dos flashes fortuitos e os minutos de espera para o resultado final.
Anatol Josepho morreu em 1980, nos EUA, longe da sua terra natal mas próximo das pessoas que acreditaram nas suas ideias. Era um apaixonado pela fotografia, que queria descobrir o mundo e acabou conhecendo pessoas e inventando um novo mundo.

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